terça-feira, 13 de março de 2012
Clarissa Corrêa
“O mundo é redondo e gira por algum motivo. Tudo, tudinho que a gente faz não é em vão. Nosso esforço, nossas recompensas, nosso sofrimento, nossa alegria, nossos tropeços, nossos sorrisos, nossos obstáculos, tudo isso tem um porquê. Ou muitos porquês. Isso agora não importa. O que importa de verdade é o que você faz com os seus sentimentos. Para receber o bem a gente deve fazer o bem. E isso significa cuidar cada ação ou palavra: não faz bem para a alma alimentar sentimentos ruins.”
Caio Fernando Abreu
“Todos os dias, logo cedo dou uma piscadinha para Deus e peço: tomara que as nossas vontades coincidam. E se não coincidirem… que a sua prevaleça.”
Luís de Camões
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
Mais que vontade de xingar tudo, sair chutando tudo que estiver em minha frente, minha direção. Vontade de sair dando soco em paredes, em muros, em rochas... Ai, minha mão! Estou cansada, farta, intolerantemente farta. Já não aguento mais essa minha fraqueza. Porra, se é da luta que nos fazemos fortes, por que caralhos eu estou assim então? A luta já começou e eu nem mover um mindinho movi e se movi, caralho outra vez, mal terminei o que comecei a mover, parei no caminho, assim, bem assim; no meio do caminho. Mas sei que lá, ó, tá vendo? Bem lá no fundo, consegue ver? Existe uma luz, uma luz brilhante que dela parece sair uma voz, estás escutando? Eu tô e ela fala assim: No final, toda esse seu cansaço vai valer a pena, a vida não é só feita de momentos bons e alegres e sim de lutas, dificuldades... Porque depois que vim o toró, vem o sol nascendo no horizonte trazendo junto a ele um sorriso que será posto em seu rosto e no final você vai dizer: "Ufa! Valeu a pena..."
domingo, 11 de março de 2012
CARLOS DRUMMOND ANDRADE
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.
se fechou, se devorou.
Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,
bebeu, gritou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou,
Em vão o pai implorou,
dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...
e fosse dormir com ele...
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
se a senhora fizer gosto,
só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.
me curvei... disse que sim.
Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
não comia, não falava,
tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
pagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,
não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.
e me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,
Olhou para mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,
e disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,
Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.
vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
vosso pai subindo a escada.
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